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| | Irresistível | Independente | 2007 | |
Por Otávio Santos
Conheci pessoalmente a Alexandra Scotti através do meu amigo Luciano Granja, na época em que ele iniciava junto a ela uma bonita e sólida parceria (compreensivelmente, meu amigo não quis se limitar a acompanhar a linda moça apenas nas realizações musicais). Alguns anos depois, vindo morar no Rio de Janeiro, tive a oportunidade de assistir a esse casal de amigos queridos no processo de gestação e concepção do terceiro Cd da cantora e compositora. Em muitos dias ensolarados desses dois últimos verões, meus convites pra ir à praia foram recusados, pois ambos estavam criando e gravando os sons que, à noite e com razão, me mostravam pálidos e entusiasmados! O Lú não estava só gravando e tocando cada vez melhor, mas estava fazendo os arranjos com o tempo necessário para poder cuidar dos detalhes com aquele capricho obsessivo, característico dele. O resultado é um som sem arestas, um tecido harmônico firmemente costurado, desde as pedrinhas brilhantes das notinhas mais sutis até as cavas nas bem medidas pausas. As novas canções da Alexandra fazem jus a todo esse carinho com que foram vestidas; ela está compondo e cantando cada vez melhor.
Irresistível abre com uma canção tão amorosa, que agora ouvindo na solidão da madrugada, me fez sentir a insensata vontade de voltar a namorar firme. O nome da balada é Singular, mas não fala de uma pessoa só, pelo contrário, a música é uma belíssima declaração de amor.
Colar de Rubi, a segunda música do disco, traz um tema mais introspectivo, o piano do Toninho está chique como o título da canção e a batera do Adal é aquele impecável relógio suíço de sempre.
Meu Esquema é a única releitura, e reforça no disco o clima poli-cultural da atual música carioca, embora o compositor Fred 04 seja do Recife.
Tudo Passará e introspectiva como uma oração e lembra as boas baladas dos anos 80, estrofe e refrão marcantes, uma especialidade da Alexandra.
Irresistível, a faixa titulo, traz aquela boa influência de Rita Lee. É uma canção cheia de poder feminino sem feminismos. O verso que diz;você me deixa tão linda... é um dos vários versos que nesse Cd revelam muito da alma das mulheres.
Contradição é a minha música preferida nesse disco. Um samba lento, moderno no arranjo e na letra, plena de um tempero ao mesmo tempo lírico e coloquial; Chicobuarquiano de primeira, escancarando a constante evolução da compositora.
Pra não dizer lembra as canções mais quentes das musas da Motown e também tem na letra aquele clima “women power”. Adoro despedida e Pra me alegrar um pouco retomam esse mesmo clima mais dançante, remetendo aos cds anteriores.
Ouvir Criança, parceria com Adriana Deffenti, é outra ótima surpresa. Uma letra quase dadaísta, que somada ao som da guitarra sitar e a melodia folk, lembra muito a fase lisérgica de uns certos rapazes de Liverpool. O George Martin Granja também caprichou nesse arranjo, cheio de ambientações lisérgicas e florestas mágicas, encerrando o cd merecedor das declarações de amor feitas na primeira faixa. |
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| | Alexandra Scotti | EMI | 2004 | |
Surpresas e armas de uma pin-up da canção
Por Antônio Carlos Miguel
MARÇO DE 2002. Uma jovem pede licença para entregar seu disco independente. Diz que é cantora e compositora, que está com um show num bar em Ipanema, que participará de um projeto para novas cantoras dirigido por Nelson Motta etc...
"O.K., vou ouvir, depois tento um registro do show", respondo, educada-automaticamente, mesmo sem levar muita fé. Afinal, são dezenas os discos de novos artistas que proliferam como coelhos na redação, e quase nada de realmente novo ou de bom costuma aparecer.
Na manhã seguinte, durante a habitual garimpagem, o disco chama a minha atenção já em sua primeira faixa, Cilada, um pop de autêntico sabor brasileiro que dosava suingue em sua levada, letra esperta e uma cantora segura, com técnica e bastante personalidade. Impressão que prosseguiu, ou aumentou, na seguinte, Meio-Dia, uma sensual cantada na qual ela se dirige sem pudores ao seu alvo: "Mas, ah! Que bom seria / Dormir um dia com você / Até meio-dia / Ah! Que bom seria / Se esse meio-dia / Durasse todo o dia".
Na semana seguinte, depois de passar por uma festa cubana no Copacabana Palace na qual Compay Segundo nos encantou com os seus habituais boleros, sons e rumbas, convenço minha mulher, Kati, e meu guru para assuntos pop-roqueiros, Ezequiel Neves, a dar uma conferida no bar na rua Teixeira de Mello no qual Alexandra estava se apresentando. Chegamos no fim, mas a tempo de pegar as duas últimas músicas e confirmar que aquela cantora e compositora que nos impressionara em disco também tinha forte presença no palco. Nada por acaso. Gaúcha que chegara ao Rio dois meses antes para tentar a vida como cantora e compositora, antes de assumir a paixão pela música ela fora bailarina e atriz, tendo trabalhado com Gerald Thomas.
26 MESES DEPOIS. Bem, num mercado voraz como o da música popular isso é quase um século. E foi com alguma apreensão que recebi o convite da EMI para fazer o texto de apresentação de uma cantora e compositora que (um século antes!) eu mesmo tratara de apresentar aos meus leitores. Mas não é que Alexandra Scotti voltou a me surpreender? A produção (dividida entre Paul Ralphes e Christiaan Oyens) soube preservar o frescor que aquele disco independente ("Amor Brechó" era o nome) esbanjava. Ralphes e Oyens, que também participam como músicos, escalaram um bom e variado time no estúdio, incluindo gente como Luciano Granja (violão e guitarra, também parceiro de Alexandra em três faixas), Rodrigo Santos e Dunga (baixo), Adal Fonseca (bateria) e Fábio Fonseca (clavinete). O resultado é profissional e descontraído, sofisticado e popular. No repertório foram aproveitadas três faixas do disco independente: aqueles dois perfeitos cartões de visita (ambos com letra e música de Alexandra), e ainda uma releitura, agora com roupagem mais eletrônica, para Paixão (balada de Kledir Ramil que foi sucesso nos anos 80). Novas canções de Alexandra confirmam a compositora de acento pop e brasileiro (agora também carioca de adoção), incluindo Do Jeito que Eu Gosto, Luz acesa,Colada em Você (com Granja), Sereia Tropical, Docinha e Pin-ups. Esta, escolhida como primeiro single para as rádios, é uma espirituosa crônica urbana, retrato de sonhos adolescentes: "De todas as garotas / Que existem no planeta / Nada se compara à beleza das pin-ups / Fofas / Divertidas / Pernas bem torneadas / Uma boca incrível / Elas vão te enlouquecer".
Como as pin-ups tão bem desenhadas nessa canção, Alexandra Scotti tem as armas para enlouquecer quem vive no planeta pop. |
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| | Amor Brechó | Independente | 2000 | |
Por Otávio Santos
Já no seu primeiro Cd, Alexandra Scotti se revela não somente uma compositora segura e criativa, mas também uma intérprete afinada, com timbre e interpretações originais. As duas baladas; Cilada e Meio Dia, abrem o trabalho com um romantismo swingado de fino teor pop. A melodia agradável e o ritmo levemente dançante de ambas as canções provou na prática suas possibilidades radiofônicas, entrando na programação de rádios cariocas e gaúchas.
Na terceira faixa; Dançar um samba, surge a influência musical setentista que a partir daí permeia o disco. A veia irônica da artista aparece na letra, que sugere um “cruzeiro em Paranaguá” como cura para uma decepção amorosa, remetendo ao senso de humor de Rita Lee, influência declarada de Alexandra. A mistura de samba com soul e rock, também lembra os coquetéis sonoros da banda Tutti Frutti. Essa sonoridade de banda roqueira, presente em Amor Brechó, é devida aos arranjos concebidos com os músicos no decorrer dos shows, (Curitiba, Porto Alegre, São Paulo, Caxias do Sul) que antecederam as gravações do cd. Tchê Silveirass (da landária banda gaúcha TNT) nas guitarras, Duda Dolls na bateria e Gugu Mendes no baixo, grupo de execução precisa, formado na tradição quase “britânica” do rock gaúcho.
A quarta faixa, Platônica, estabelece o momento mais introspectivo do Cd. Esta parceria com Jylson Martins, traz um belo blues em tom menor, de harmonia quase jazzística. A melodia sinuosa envolve com propriedade o niilismo dos versos que perguntam se o mal tem cura?
Paixão, de Kledir Ramil, já havia sido sucesso nos anos 80 na voz dos irmãos Kleiton e Kledir. A releitura fiel ao calor da versão original, não foi somente responsável pela volta da canção ao ouvido do público gaúcho, sendo veiculada pela Itapema FM, mas também pelo convite dos irmãos para que Alexandra fizesse participações especiais em seus shows.
A cobrar, sexta faixa do cd, dialoga com a harmonia sintética e verborragia do rap, contrastando com o lirismo folk da música seguinte; Rotina em Ré maior, cuja letra quase minimalista e melodia delicada lembra os melhores momentos das parcerias de Arnaldo Antunes e Marisa Monte. O lisérgico vocalize ao final da canção mantém o caráter roqueiro do cd.
A oitava faixa; Fax-de-conta, mantém o espírito rock-folk no ritmo e nos versos; você: fonte que nunca seca, navio que nunca atraca, fera que não se caça, cristal que não se quebra... coroados pela participação luxuosa de Luis Carlini
(Tutti-Frutti) no Lapsteel.
Nas últimas duas faixas a cantora homenageia e brinca com suas origens gaúchas. Na faixa título Amor Brechó, a métrica dos versos e o ritmo da canção são deliberadamente inspirados no folclore gaúcho, não fosse pela ousadia nada tradicionalista da descolada prenda que assume ter entre seus dotes o título de diplomada na escola do amor.
A mesma irreverência presente na décima e última faixa do cd; Rio Grande do Blues, (aclamada vencedora pelo júri popular do festival de Alfenas em Minas Gerais) onde a cantora fala de sua saudade das noites no Bom-fim, conhecido reduto da boemia roqueira porto alegrense.
O cd Amor Brechó mescla as várias influências da cantora e compositora gaúcha, sem perder a unidade, delineando o estilo próprio dos versos e do cantar de Alexandra Scotti, confirmado nos cds seguintes. |
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